Com voo marcado, viajantes sem visto dos EUA enfrentam indefinição


Brasileiros que têm documentos retidos não sabem se conseguirão viajar. Embaixada não pode ser responsabilizada, dizem especialistas.

A suspensão das entregas de passaportes com vistos dos Estados Unidos, por causa de uma decisão judicial, tem causado preocupação e transtornos a brasileiros que aguardam a devolução de seus documentos de viagem.

A piauiense Lea Veras, de 29 anos, faz doutorado em química computacional nos Estados Unidos há três anos. Em viagem para um congresso no Brasil, ela resolveu renovar por antecipação o visto de estudante, que vence no ano que vem. Agora, a menos de 12 horas de seu voo de regresso aos EUA, Lea não sabe se vai conseguir viajar.

Lea Veras, personagem de matéria sobre visto americano. (Foto: Arquivo pessoal)Lea Veras não sabe se conseguirá viajar para
retomar o doutorado (Foto: Arquivo pessoal)

Lea deu entrada no processo no dia 23 de outubro - dois dias antes da proibição da entrega. Como não exige entrevista, a renovação costuma demorar um ou dois dias. Mas, devido à decisão, até hoje ela não conseguiu pegar seu documento.

“Quis renovar com antecedência para não ficar presa nos Estados Unidos, mas agora fiquei presa no Brasil. Vou ter o prejuízo financeiro de remarcar a passagem, fora o prejuízo profissional. Minha orientadora espera que eu esteja nesta terça nos Estados Unidos”, diz. Ela também corre o risco de ter que trancar uma matéria que está cursando, caso não consiga chegar no país até quarta-feira.

Muitos brasileiros enfrentam uma indefinição parecida. Entre eles, parte de uma turma de 500 jovens que foram aprovados em um processo de intercâmbio para trabalhar em parques da Disney na Flórida e na Califórnia. Morador do Guarujá (SP),o estudante de publicidade Henrique Ferreira, de 21 anos, deixou seu emprego para viver essa experiência de três meses.

Ele fez a entrevista no dia 25 de outubro e já pagou passagem, hospedagem e seguro médico. Seu embarque está marcado para a manhã de 13 de novembro. “Só queria que liberassem meu visto para que eu possa pegar ir até São Paulo pegar no Consulado”, diz.










 

Henrique Ferreira, personagem de matéria sobre visto americano (Foto: Arquivo pessoal)Henrique Ferreira, que foi aprovado em um intercâmbio para trabalhar na Disney  (Foto: Arquivo pessoal)

Colega de Henrique no programa de intercâmbio, a estudante de direito Jéssica Araújo, 18, enfrentava a mesma apreensão até receber, na manhã desta segunda-feira (5), uma resposta ao e-mail que enviou ao Consulado, avisando que seu documento estava liberado para retirada. Sua viagem será no dia 12. Ela havia optado por receber o passaporte em casa, em Uberaba (MG), mas teve que pedir a um amigo que o buscasse em Brasília.




















 

Renata Angeleli, personagem de materia sobre visto americano (Foto: Arquivo pessoal)Renata Angeleli, que tem viagem marcada para o dia
12 de novembro (Foto: Arquivo pessoal)

Também com viagem marcada para o dia 12 de novembro, a assistente financeira Renata Angeleli, de 26 anos, está apreensiva.

Ela vai passar um ano como “au pair” (babá) na cidade de Indianapolis e só conseguiu marcar a entrevista de solicitação do visto para o dia 1º de novmebro, pois até então esperava um documento que viria dos Estados Unidos.

“A agência me orientou a fazer o processo porque em uma situação de normalidade eu receberia o passaporte”, diz.

Renata planeja remarcar a passagem caso não receba uma resposta até quinta-feira.

“Mas corre o risco de a família americana que vai me contratar lá não querer mais que eu vá, por causa da demora. Aí eu terei que começar o processo de seleção todo novamente”, afirma.

Saiba o que fazer
Em comunicado neste fim de semana, a CSC (empresa contratada pela Embaixada americana para fazer a distribuição dos vistos no Brasil) afirmou que parte dos vistos serão entregues a partir de 11 de novembro. Quem tiver viagem marcada para esta semana terá seu caso levado em consideração, diz a nota.

Segundo especialistas ouvidos pelo G1, quem tem passagem para os próximos dias não tem muito a fazer a não ser relatar o caso à CSC (pelo e-mail contactus_pt_br@usvisa-info.com ou pelos telefones divulgados) e esperar por uma resposta. Isso porque a Embaixada é soberana para decidir a quem, quando e onde entregará o visto.

“Mesmo que a pessoa entre na Justiça e um juiz decida a favor dela – o que é improvável –, o Consulado não é obrigado a cumprir a decisão, pois é considerado território americano. Como acontece com qualquer consulado estrangeiro, a lei brasileira não se aplica”, explica Ingrid Baracchini de Oliveira, advogada de imigração especializada em visto para os Estados Unidos.

Não há nenhuma legislação que defina um prazo máximo para a entrega do visto. O tempo estimado é de dez dias úteis em condições normais, mas esse prazo pode variar. Em seu site, a Embaixada americana no Brasil recomenda que os solicitantes “não façam nenhuma reserva de viagem antes de receber o passaporte com o visto”.

"Por cautela, isso é o que eu indico, principalmente sabendo que já houve histórico de extravio de passaportes e problemas como esse de agora”, afirma a advogada Luciana Atheniense, especialista em direito do turismo.

Quem tiver viagem marcada para outro país e quiser retirar o passaporte pode escrever um e-mail para contactus_pt_br@usvisa-info.com afirmando que abre mão do visto. Nesse caso, a pessoa será orientada a buscar o documento no Consulado. 

“Isso já pode ser feito nos casos em que se abre um processo administrativo – quando a pessoa é homônima de alguém que cometeu um crime, por exemplo, e o Consulado faz uma investigação. Esse processo dura até 60 dias, e, caso não queira esperar, a pessoa pode enviar um e-mail dizendo que desiste do visto e será orientada a retirá-lo no dia seguinte”, diz Ingrid Baracchini.

A companhia aérea também não é obrigada a cobrir os custos da remarcação ou do cancelamento da passagem, afirma a Fundação Procon-SP. “Fica difícil responsabilizar a companhia aérea nesse caso, já que a Embaixada coloca prazos estimados de entrega e recomenda não marcar viagens com prazos muito apertados”, diz Renan Ferracioli, assessor chefe da entidade.

Segundo ele, o consumidor pode tentar explicar a situação à companhia aérea, argumentando que adotou as cautelas necessárias e que não conseguiu o visto a tempo por um fator alheio à sua vontade. “É de bom tom que a empresa leve isso em conta. Mas é uma relação pautada pela boa fé”, conclui.

Lei postal
A suspensão da entrega dos vistos foi determinada por um juiz que atendeu a pedido dos Correios. A empresa se baseia na lei 6.538/78 (Lei Postal),  que determina que o “recebimento, transporte e entrega, no território nacional, e a expedição, para o exterior, de carta e cartão-postal” devem ser explorados pela União, em regime de monopólio. Segundo os Correios, isso inclui o envio dos passaportes - e, portanto, a distribuição desses documentos seria uma exclusividade sua. Foi essa também a interpretação do juiz.

A DHL Express considera "descabido classificar um passaporte como carta, já que o mesmo se trata de um documento de identidade emitido pelo governo nacional que reconhece um determinado portador; e não um objeto de correspondência sob forma de comunicação escrita".

Os Correios informaram que entraram em contato várias vezes com a Embaixada dos Estados Unidos, "para esclarecer e orientar sobre o procedimento correto a ser adotado". "Os Correios entregavam anteriormente passaportes em todo território nacional, sem demora ou atraso. Entre as capitais, por exemplo, o prazo de entrega não ultrapassava dois dias úteis", afirmou a empresa.

Fonte G1
http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2012/11/com-voo-marcado-viajantes-sem-visto-dos-eua-enfrentam-indefinicao.html

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